Sente-se, deixe-me contar-lhe aquilo de que me recordo. O meu
pai, Pavel Zounek, toda a vida fora sapateiro remendão. Mas ao sentir aproximar-se a velhice, desejou dedicar mais tempo às actividades alquímicas, despejando-me sobre os ombros a maior parte do trabalho da oficina. Cosíamos e remendávamos para o Castelo, e com isso nos íamos remediando.
E ainda que cosesse como os próprios anjos, sentado no meu escabelo de sapateiro, a minha ambição voava tão alto como os gaviões. Bom estudante, palreiro e sonhador, há muitos anos que ambicionava entrar no collegium imperial de poetas, aquele onde tinha despontado, há já alguns anos, a excelente Isabel Weston, Westoniana, aquela poeta católica inglesa que tinha pedido asilo na corte de Rodolfo, depois da morte de Estuardo.
O meu pai, utraquista convicto e irmão moravo, era o único artesão protestante do bairro judeu. Amava as Sagradas Escrituras, mas conhecia a Cabala de trás para a frente. E dizia, como Anaxágoras, que “tudo está em tudo”.
Tinha sido íntimo do rabi Loew. Chegou a constar, inclusivamente, que tinha participado na destruição do Golem, levada a cabo numa sextafeira à noite. Mas negou sempre tal facto, mesmo no leito de morte.
Já conhece a história: quando mandaram chamar o rabi, estava este a recitar o salmo sessenta e dois na nova sinagoga velha.
“O José Golem enlouqueceu”, disseram-lhe. Felizmente, ainda não era meia-noite. Pois a Lei, que proíbe qualquer tipo de actividade ao sábado, tê-lo-ia impedido de levar a cabo a aniquilação do Golem louco. E, quem sabe, talvez a cidade
de Praga, varrida de uma vez só pela sua ira, tivesse desaparecido para sempre da face da terra. Tanto melhor. Teríamos sido poupados a uma hoste de sofrimentos. Para onde vão as cidades quando desaparecem? Passam a fazer parte de um outro mapa, num outro mundo, tal como Niníve,
Gomorra, tal como a Atlântida submersa? Ignoro-o.
Loew pediu a um par de vizinhos que o ajudassem. Já sabe, o procedimento é simples, é necessário retirar o schem criador da boca, e seguidamente repetir todos os gestos da criação, fórmulas e rotações, mas ao contrário. Dizem que foi o meu pobre pai quem, tendo-se atrapalhado na pronúncia do alfabeto invertido, quase nos enterra a todos no meio do barro, pois este começou a crescer como se tivesse levado fermento.
Mas o Golem voltou a ser o que era, um grumo de terra húmida,
dentro de uma caixa, no sótão. Desde então, correm periodicamente rumores de que o José Golem regressou.
Tantas recordações. Em criança, brincava pelas quelhas junto à Sinagoga, com os netos do rabi. Lembro-me de que no dia em que morreu o santo homem, quebraram-se, uma a uma, todas as faces dos relógios da cidade de Praga.
E o rabi Loew tinha conseguido escapar da morte até uma idade
muito avançada. Dizem que tinha fabricado um artefacto mecânico que retinia como um despertador sempre que a morte, vestida de vendedor ambulante, de varina, de cavalheiro ou de mendigo, se aproximava. E o engenho funcionou.
Passaram muitos anos. Mas um dia a família apresentou-se na casa do rabi para festejar o seu aniversário. O ancião estava tão emocionado, que se esqueceu do seu relógio contra a morte no gabinete. Sentia-se feliz por ter alcançado uma idade tão venerável! Ali estavam todos os seus filhos, e as suas noras, e os filhos dos seus filhos.
A mais nova das suas netas trazia-lhe uma bonita rosa vermelha.
– Avô, é para ti – disse-lhe.
E o rabi sorriu ao ver o último broto do seu sangue. E quando inclinou a cabeça deleitada e trémula para aspirar o odor da corola, caiu fulminado pela morte.
Pois a morte tinha-se escondido entre as pétalas. Ele nunca o soube, mas talvez fosse aquela gota de orvalho, que estremecia solitária. Quem sabe?
Foi enterrado ali mesmo, com pompa e circunstância. De ambos os lados do seu túmulo, jazem ainda trinta e três dos seus alunos preferidos.
Veja bem. Aquela menina, com apenas dez anos, foi mensageira da morte. Também ela morreu jovem. Enterraram-na numa campa minúscula do outro lado do cemitério, sob um arbusto de mimosas.
Lembro-me que, quando morreu alguém disse: “Foi Rodolfo quem a levou”.
Era sempre assim: “Vem aí o Rodolfo”, ameaçavam as avós.
E até as canções populares culpavam Rodolfo pela queda das folhas e pela chegada irremissível do Verão. |